Deu no Estadão - Farinha de Bragança é crocante e intensa. E quer indicação geográfica
De Bragança e Tracuateua, Pará
Ela é a rainha da feira. Exibe orgulhosa seu nome, chama a atenção de quem passa. É a menina dos olhos da bancada de farinhas, a mais pedida, a mais procurada. Amarelinha, crocante, intensa. Das melhores do País. É de mandioca e é d'água. E é de onde? De Bragança.
A fama da farinha bragantina começou pelos idos de 1900, quando uma estrada de ferro cortou os 222 km que separam o nordeste paraense de Belém. A capital passou a ser abastecida com a farinha da região, já intensa produtora. Confiável, sempre bem torrada, saborosa, sem bagaço, conquistou os paraenses. A ferrovia foi desativada em 1965, mas a tradição herdada dos índios tupinambás seguiu ganhando força e, hoje, a região se prepara para pleitear o selo de indicação geográfica para a farinha.
| A farinha da região de Bragança é amarelinha, crocante e de sabor intenso. Foto: Carlos Borges|Divulgação |
A farinha de Bragança é uma farinha d'água, o que significa que a mandioca passa por um processo de fermentação na água. Neste caso, fica pubando [fermentando], em tanque ou igarapé, por cerca de quatro dias. Depois, é descascada e pode ficar até mais dois dias submersa. Só então é levada, já amolecida, para a casa de farinha, onde é triturada [amassada na mão ou passada em uma máquina chamada de catitu], prensada [em sacos ou no tipiti, espremedor de palha trançada], peneirada e torrada.
Além do tempo de fermentação, responsável pelo sabor intenso, outro segredo é a torra: ela vai ainda úmida para o tacho, é mexida manualmente durante o processo chamado de escaldamento, quando ela pré-cozinha antes de torrar – daí a crocância. Já a cor amarelada é decorrente das variedades de mandioca usadas, nada de corantes.
| Seu Bené é conhecido como o Mestre da Farinha. Foto: Carlos Borges|Divulgação |
Tanto Nazaré quanto seu Bené se orgulham de suas farinhas serem “muito bem lavadas”. Os dois produtores lavam a mandioca em água limpa antes de ela ser prensada, um passo opcional que ajuda a diminuir a acidez da raiz. O resultado é uma farinha de gosto ainda complexo, porém mais suave e menos ácido - “pode comer o dia todo que não vai irritar o estômago”, garante seu Bené.
| O paneiro é uma cesta de palha trançada à mão e recoberta com folhas frescas de guarimã usada como embalagem para a farinha. Foto: Carlos Borges|Divulgação |
Teresa Corção, chef d’O Navegador, no Rio, usa a farinha de seu Bené, seu velho conhecido, como cuscuz – hidratada com leite de coco e tucupi – servido com peixe grelhado e molho de moqueca capixaba [R$ 78].
| Prato Peixe de Bragança, d'O Navegador, no Rio. Foto: Divulgação |
Saindo de restaurantes, no Pará, a farinha d’água é consumida em todas as refeições, seca ou úmida. É a granola da manhã, estrela do almoço e jantar, par obrigatório do açaí e das caldeiradas, parceira de frutas e compotas, petisco durante a tarde. “A farinha é o pão do caboclo”, como bem diz Thiago.
| No Sítio Fênix, a segunda parte da torra é mecanizada, mas os tachos são à lenha. Foto: Carlos Borges|Divulgação |
“São muitos segredos para fazer farinha boa”. Quem diz é Benedito Batista da Silva, seu Bené, referência quando o assunto é farinha de Bragança. Com 70 anos de idade e 62 de roçado, é um grande professor, conhecido como Mestre da Farinha.
Conheça seu Bené, o Mestre da Farinha
Aprendeu a fazer farinha com sua mãe e paneiros, cesta de palha trançada à mão e recoberta com folhas frescas de guarimã usada como embalagem para a farinha, com a vida. Apenas com a primeira série do ensino fundamental completa, diz que se sente “tão rico e tão sábio quanto um doutor”. Muito respeitado, dá aulas sobre mandioca, farinha e artesanato para quem quiser ouvir. E assim, leva para frente as técnicas ancestrais que executa com tanta habilidade.
Em 2005, a Teresa Corção, chef do restaurante O Navegador, no Rio, já estudava mandioca e como ela definia a identidade culinária brasileira. Quando foi convidada para dar uma palestra sobre o assunto nos EUA, decidiu fazer um documentário sobre produtores artesanais de farinha. E foi assim que chegou até seu Bené [ela tinha visto um de seus paneiros no Ver-o-Peso anos antes e se impressionado]. O curta-metragem O Professor da Farinha foi apresentado no congresso americano, no Slow Food on Film 2006, no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Para Teresa, o filme culminou na criação do Instituto Maniva. Para seu Bené, foi o início de uma trajetória de reconhecimento.
| Quando a chef Teresa Corção conheceu seu Bené para gravar o primeiro documentário, em 2005, ele ofereceu a ela uma merenda feita por ele: farinha com camarão seco. Foto: Teresa Corção|Divulgação |
Grande estudioso da farinha, até hoje, mantém as técnicas tradicionais de preparo não por apego, mas por experimentação. Ele já usa o catitu e não deixa mais a mandioca de molho no rio. Mas segue com o tacho de cobre, o cocho de madeira talhada [onde a massa úmida é trabalhada e a farinha já pronta descansa; ele testou outras madeiras e alumínio e não gostou do resultado], as peneiras manuais, o tipiti e, principalmente, o paneiro. Ele é um dos únicos que ainda fazem o artesanato, que, além de preservar a farinha crocante por um ano, dá a ela um aroma particular.
“A minha história começou tudo por conta desse artesanato aqui: o paneiro. Comecei muito jovem na agricultura, cresci sem pai, filho de mãe solteira, lutando”, conta. Hoje, produz 150 quilos de farinha [entre a lavada, de tapioca, de coco e uma versão mais torrada para fazer farofa] por dia em sua casa na região rural de Tracuateua.
O processo da IG
No Brasil, há duas modalidades de Indicação Geográfica concedidas pelo INPI [Instituto Nacional da Propriedade Industrial], órgão nacional também responsável por marcas e patentes. A Indicação de Procedência [IP] garante que determinado item veio da região reconhecida pela sua produção, tendo, portanto, características próprias e identidade reconhecida. A Denominação de Origem [DO] é dada a produtos e serviços cujas características se devam essencialmente pelos fatores naturais e humanos de um local.
Como é feita a farinha de Bragança no Sítio Fênix
O País tem 44 IPs e 18 DOs, sendo 46 deles produtos alimentícios. Há ainda 38 pedidos em avaliação. Entre eles, três regiões buscam a IP para suas farinhas de mandioca: Cruzeiro do Sul [AC], litoral do Paraná e região de Uarini, no Amazonas.
Em Bragança, um grupo de trabalho envolvendo produtores locais, prefeituras e instituições como Sebrae, Adepará [Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Pará] e Emater [Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural] está se articulando para entrar com o pedido no INPI já no ano que vem. Até agora, já foram decididas a delimitação da área geográfica que ganhará a IP [os municípios de Bragança, Tracuateua, Augusto Corrêa, Viseu e Santa Luzia do Pará] e a entidade que será portadora do selo [a Cooperativa Mista de Agricultores Familiares do Caeté, Coomac]. Os próximos passos serão um parecer de uma universidade demonstrando a origem da fama da farinha d´água de Bragança e seu valor cultural e histórico, e a descrição oficial do modo de produção.
| Banana caiçara com farinha d'água e edamame, do Maní. Foto: Roberto Seba|Divulgação |
| Hambúrguer Não Era Amor, com queijo coalho, vinagrete com jambu e tucupi e farinha d'água, do Meats. Foto: Paulo Yoller|Divulgação |


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